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Todas as drogas psicotrópicas atuam sobre o cérebro,
principal órgão do sistema nervoso central.
Há diversas classificações possíveis para as drogas,
dependendo do enfoque a que se propõem os pesquisadores
ou interessados no assunto.
FIGURA 1: Cada substância
age no cérebro de uma maneira e são
utilizadas pela humanidade com propósitos
distintos, podendo estes serem lícitos ou
ilícitos. Assim, surgiram classificações
para organizar tais substâncias e seus modos
de consumo
I. Classificação
quanto aos efeitos farmacológicos das drogas
Essa é a maneira de classificar as drogas
psicotrópicas mais aceita e difundida. Ela
leva em conta o tipo de ação ou efeito
que as drogas causam no cérebro de seus usuários
(quadro 1).
Drogas depressoras do sistema nervoso central
Depressores de ação central ou psicolépticos
são substâncias capazes de lentificar
ou diminuir a atividade do cérebro, possuindo
também alguma propriedade analgésica
(quadro 2). Pessoas sob o efeito de tais
substâncias tornam-se sonolentas, lerdas,
desatentas e desconcentradas.
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FIGURA 3: Depressores
do sistema nervoso central [da esquerda
para a direita]: álcool, comprimidos
de benzodiazepínicos, opiáceos sintéticos
e Inalantes.
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Drogas estimulantes do sistema nervoso central
Estimulantes centrais ou psicoanalépticos
são substâncias capazes de aumentar
a atividade cerebral (quadro 3). Há
aumento da vigília, da atenção,
aceleração do pensamento e euforia.
Seus usuários tornam-se mais ativos, 'ligados'.
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FIGURA 4: Os estimulantes:
o crystal (derivado das anfetaminas),
a cocaína, o cigarro de tabaco (nicotina)
e a noz de cola em pó (cafeína).
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Drogas perturbadoras do sistema nervoso central
As drogas perturbadoras, alucinógenas
ou psicodislépticas são aquelas relacionadas
à produção de quadros de alucinação
ou ilusão, geralmente de natureza visual
(quadro 4). Os alucinógenos não
possuem utilidade clínica (como os calmantes),
tampouco podem ser utilizados legalmente (como o
álcool, o tabaco e a cafeína). Os
alucinógenos não se caracterizam por
acelerar ou lentificar o sistema nervoso central.
A mudança provocada é qualitativa.
O cérebro passa a funcionar fora do seu normal
e sua atividade fica perturbada.
O termo psicodélico foi bastante utilizado
nos anos setenta, como sinônimo de alucinógeno.
Ele surgiu em meio ao movimento hippie e envolto
na concepção de que os alucinógenos
eram capazes de expandir os estados da mente.
Havia uma associação entre alucinógenos
e a melhora da sensibilidade, da percepção
do mundo, da realidade e da consciência
sobre a Humanidade. Abandonado nos últimos
anos pelos cientistas, sempre se manteve presente
no meio artístico e intelectual, entitulando
inclusive movimentos artísiticos desde
então. A fim de retratar a origem história
desta palavra, um fragmento de um texto de John
Cashman (escrito em 1966 com o intuito de apresentar
à sociedade norte-americana e discutir
com essa o que era o LSD) aparece a seguir:
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FIGURA 6: A arte psicodélica.
Da esquerda para a direita: Eyeball
(John Allen), DMT Entity (Roger Essig),
Shoes madness (Drew French) e Ecstasy
of St. John (Nicholas Warner).
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Enquanto grupo, tais drogas são geralmente
conhecidas como alucinógenas, visto
causarem transformações na percepção
semelhantes a alucinações. Mas o nome
é impreciso. Pessoas sob a influência
do LSD ou qualquer outra das substâncias naturais
tem consciência de que o que estão
vendo não é real, é o efeito
da droga. Por outro lado, alucinações
verdadeiras são aquelas visões em
que o paciente realmente acredita naquilo que está
vendo. O termo, de qualquer modo, é bastante
característico, e é prontamente compreeendido
por médicos e leigos.
Num esforço para se adequar ao efeitos
reais da droga, o termo psicomimético
(o que imita a psicose) tem encontrado apoio nos
círculos médicos. Mas esse termo é
enganador, na medida em que não diz quais
as psicoses ou que os atributos que as drogas são
capazes de desencadear diferem acentuadamente da
psicose com que são no mias das vezes associados
a esquizofrenia. A esperança
prematura de que o LSD e a psicilocibina poderiam
conduzir a uma violenta penentração
no tratamento e compreensão da esquizofrenia,
a psicose mais difundida e que mais tem resistido
aos tratamentos, foi, apesar de tudo, abandonada.
Um esforço admirável para dar
às drogas dilatadoras da mente uma designação
genérica mais apropriada, envidou em 1957
O Dr. Humphry Osmond. Escrevendo nos Anais da
Academia de Ciências de Nova York, o Dr.
Osmond sumarizou sua busca semântica:
"Tentei achar nome apropriado para os
agentes [psicomiméticos] em discussão:
um nome que incluísse os conceitos de enriquecimento
da mente e alargamento da visão. Algumas
das possibilidades são: psicofórico
(transformador da mente), psico-hórmico (excitante
da mente) e psicoplástico (moldador da mente).
Psicozínico (fermentador da mente), com efeito
é apropriado. Psico-réxico (explosor
do espírito), apesar de difícil, é
memorável. Psicolítico (libertador
da mente) é satisfatório. Minha escolha
recai sobre psicodélico (manifestador
da mente), pois o termo é claro, eufônico
e não contaminado por outras associações."
Os três termos estão em uso,
não necessariamente de maneira intercambiável.
O termo alucinógeno é usado por quase
todo mundo. Mas se alguém chama as drogas
de psicomiméticas, podemos apostas que pertence
à confraria médica. Se usa o termo
"psicodélico", as propabilidades
de que seja um adepto do movimento pelo livre uso
do LSD. E se, para denominar o LSD, usa somente
o termo "ácido", provavelmente
tem o hábito de toma-lo, conhece alguém
que toma ou é um leitor do Time que está
tentando passar por hippy. Nós nos referiremos
ao LSD e ao resto da família como alucinógenos.
(Cashman J. LSD. São Paulo: Ed. Perspectiva,
1980)
II. Classificação
quanto ao potencial de uso nocivo e utilidade clínica
A Federal Drug Enforcement Administration
(DEA) elaborou uma classificação bastante
adotada hoje pelos órgãos de saúde
pública e vigilância sanitária
de todo o mundo. A classificação baseia-se
tanto na utilidade clínica da substância,
quanto no seu potencial de uso nocivo (quadro
5).
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| Quadro
5: Classificação
do Federal Drug Enforcement
Administration (DEA) |
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Classe |
Substâncias |
Classe I: Nenhuma utilidade
clínica
Alto potencial de abuso e dependência |
Heroína
Alucinógenos (LSD, mescalina)
Maconha |
Classe II: Baixa utilidade
clínica
Alto potencial de abuso e dependência |
Ópio ou morfina
Codeína
Opiáceos sintéticos
Barbitúricos
Anfetaminas & derivados
Cocaína
Fenciclidina (PCP) |
Classe III: Alguma utilidade
clínica
Potencial moderado de abuso e
dependência |
Paracetamol e codeína combinada
Esteróides anabolizantes
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Classe IV: Grande utilidade
clínica
Potencial baixo de abuso e dependência |
Benzodiazepínicos
Fenobarbital |
Classe V: Grande utilidade
clínica
Potencial muito baixo de abuso
e dependência |
Misturas de narcóticos
e atropina
Misturas diluídas de codeína |
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Quadro 6: Drogas lícitas
e ilícitas no Brasil |
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Drogas lícitas |
Drogas ilícitas |
Álcool
Tabaco
Cafeína |
Cocaína
Maconha
LSD
Heroína |
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III. Classificação
quanto ao status legal das substâncias
As drogas psicotrópicas podem ser, do
ponto de vista legal, consideradas lícitas
ou ilícitas. As drogas lícitas
possuem permissão do Estado para serem comercializadas
e consumidas. As drogas ilícitas não
podem ser consumidas e muito menos comercializadas,
pelo menos com a anuência do Estado (quadro
6). Os critérios utilizados para determinar
as drogas lícitas e ilícitas são
mais culturais do que científicos. Isso porque
as drogas não são meros compostos
farmacológicos. Elas também recebem
outros atributos e os valores sustentados por cada
sociedade influem nas idéias formadas sobre
as drogas. Tais valores variam ao longo do tempo
e da nação para nação.
Durante o século IX, o uso de aguardentes
era proibido na China. Até hoje, as bebidas
alcoólicas são veementemente proibidas
nos países islâmicos. O consumo de
café no Império Russo (século
XVIII) era punido com a mutilação
das orelhas. O uso de tabaco era punido com a amputação
dos membros na Pérsia e na Turquia (século
XVII).
Esta divisão eminentemente cultural, pode
passar a idéia de que as drogas lícitas
são seguras, ao passo que as ilícitas
são perigosas, demoníacas até.
Na realidade, o álcool e o tabaco são
as substâncias que mais levam seus usuários
à doença e à morte. São
as que mais causam mortes passíveis de prevenção
no mundo. Desse modo, não se trata de absorver,
minimizar ou condenar esta ou aquela substância.
Todas trazem prejuízos e perigos potenciais
que devem ser sempre considerados, independentemente
de serem lícitas ou ilícitas.
É importante notar que mesmo as drogas tidas
como lícitas sofrem controles por parte das
nações. Algumas drogas com potencial
de uso nocivo, mas com indicações
medicamentosas são vendidas de forma controlada,
com receitas especiais (quadro 7). Na maior
parte dos países, o álcool não
pode ser vendido para menores de 18 anos e em alguns
deles sua venda é proibida aos domingos (dia
religioso). O consumo de álcool não
é permitido dentro da escola ou do trabalho.
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| Quadro
7: Drogas psicotrópicas de venda
controlada |
| Nome da droga |
Nome comercial |
Indicação
clínica |
Benzodiazepínicos:
Diazepam
Clordiazepóxido
Clonazepam
Midazolam
Alprazolam
Bromazepam
Flunitrazepam |
Valium®
Psicosedin®
Rivotril®
Dormonid®
Frontal®
Lexotan®
Rohypnol® |
Tranqüilizantes
ou calmantes (ansiolíticos)
Indutores do sono (hipnóticos
ou soníferos) |
Anfetaminas
& derivados:
Anfepramonas
Femproporex
Metilfenidato |
Dualid®, Hipofagin®, Inibex®
Desobesi®
Ritalina® |
Moderadores do apetite
(Anorexígenos)
Déficit de Atenção
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Derivados
do ópio:
Fentanila
Meperidina
Morfina
Codeína |
Durogesic®, Fentanil®, Inoval®
Dolantina®, Dolosal®
Astramorph®, Dimorf®
Belacodide®, Setux® e Tylex®
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Anestésicos
gerais, Analgésicos,
Antitussígenos e Antiespasmódicos
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Anticolinérgicos:
Triexfenidila
Diciclomina
Benzidamina |
Artane®
Bentyl®
Benflogin® |
Antiparkinsoniano
Antiespasmódico
Antinflamatório |
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É possível notar que entre as
drogas lícitas há aquelas que não
possuem utilidade médica, mas são
consumidas livremente ou com algum controle. É
o caso do álcool e do tabaco. Há aquelas
que apesar de causarem dependência possuem
indicações médicas precisas
e importantes. São os calmantes, os analgésicos
derivados do ópio e as anfetaminas. Mas há
um último grupo, que não possui indicações
para uso médico, tampouco destinam-se originalmente
ao consumo humano. Tratam-se dos inalantes.
Esses compostos orgânicos, presentes nas tintas
acrílicas, sprays, corretores de tinta, nos
combustíveis, colas, solventes e removedores
são causadores potenciais de complicações
agudas e crônicas. Seus usuários são
principalmente os jovens de classes menos favorecidas.
Uma droga lícita que nos rodeia imperceptível
e ainda carece de mais atenção de
nossa sociedade.
IV. Classificação
quanto a origem
As drogas podem ser classififcadas em naturais,
semi-sintéticas e sintéticas:
Drogas
Naturais |
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São aquelas extraídas
de uma fonte exclusivamente natural, em geral
de plantas. Alguns exemplos são a cocaína,
a maconha, a morfina, a mescalina e a psilocibina.
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Drogas
Semi-sintéticas |
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São drogas obtidas
em laboratório, a partir de uma matriz
natural. A droga semi-sintética mais
conhecida é a heroína, obtida
em laboratório a partir da molécula
de morfina.
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Drogas
Sintéticas |
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| Drogas
totalmente obtidas em laboratório,
sem a necessidade de precursosres naturais.
As primeiras drogas sintéticas
psicotrópicas produzidas foram
os barbitúricos e as anfetaminas.
Há vários opiáceos
sintéticos em nosso meio, dentre
os quais destacam-se a meperidina (Dolantina®)
e a fentanila (Fentanil®). Uma nova
classe de drogas apareceu dentro das
drogas sintéticas. São
as chamadas designer drugs ou
club drugs (quadro 8).
A palavra designer significa desenhada,
modificada. São drogas sintéticas
obtidas por meio da manipulação
laboratorial de outras drogas sintéticas,
com o intuito de potencializar seus
efeitos, minimar reações
adversar ou combinar novas sensações.
São fruto da popularização
e da banalização tecnológica,
uma vez que são sintetizadas
em laboratórios clandestinos,
em escala doméstica. Por serem
consumidas preferencialmente por jovens
freqüentadores de dance clubs e
festas tecno denominadas raves, também
ganharam o nome de club drugs. |
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| Quadro
8: Designer drugs ou club
drugs |
Álcool
MDMA (ecstasy)
LSD
GHB & GBL
2CB & 2-CT-7
4MTA
PMA & PMMA
Quetamina (Special K)
Nitratos (poppers)
Fentanil
Rohypnol®
Anfetaminas & metanfetaminas
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Por fim, é importante comentar um conceito
bastante presente em nossa cultura: o natural
é sempre seguro e saudável. Muitos
afirmam não se aproximar da cocaína,
da heroína e do ecstasy porque são
'químicos', enquanto que a maconha é
uma erva, é natural. Se isso fosse totalmente
verdadeiro não haveria venenos naturais.
Ser da natureza não confere inofensividade
a ninguém. Além disso, o organismo
interpreta os alimentos e substâncias ingeridos
sob a óptica química. Ele absorve
moléculas, que uma vez em seus receptores
geram determinados efeitos, muitos deles capazes
de causar dependência. Não interessa
ao corpo se saíram de uma planta cultiva
com adubos biológicos ou de uma caixa de
medicamento. O tabaco é uma planta de venda
lícita. Nem por isso deixa de causar problemas
ao organismo. |
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