 |
| Sinais e Sintomas da Dependência
Química |
|
 |
|
|
|
|
| FIGURA 0 - Newton. William Blake
(c. 1805). |
|
|
Os elementos
que compõem os critérios diagnósticos
da dependência álcool, nicotina e outras
drogas (quadro 1) foram formulados durante os anos
setenta por Griffith Edwards e sua equipe.
 |
 |
 |
 |
Quadro 1:
Sinais e sintomas da dependência de
substâncias psicoativas |
# Compulsão
ou perda do controle
# Tolerância
# Síndrome de abstinência
# Evitação dos sintomas de abstinência
# Saliência do consumo
# Estreitamento do repertório
# Reinstalação da síndrome
de dependência
|
|
 |
 |
 |
 |
|
A síndrome de dependência desenvolvida permitiu
que houvesse uma universalização do diagnóstico.
Ao mesmo tempo, por meio do conceito de gravidade,
mostrou que o conceito de dependência é universal,
mas que a manifestação da sintomatologia acontece
em níveis de gravidade distintos, sempre influenciados
pela personalidade e o ambiente onde vive o indivíduo.
Compulsão ou perda do controle
Há
duas sensações presentes nesse critério:
a perda do controle e o desejo ardente para consumir uma
droga. É o sentimento de estar nas garras de algo
estranho, irracional e indesejado.
 |
 |
 |
 |
Compulsão
ou perda do controle em frases
"Se eu tomar um ou dois, não paro
mais."
"Se eu passar por um bar, esqueço
da promessa de parar."
"Se eu passar pela boca, entro."
"Se fumar uma vez, volto."
"Passo o dia fissurado por um gole." |
|
 |
 |
 |
 |
|
|
|
|
|
| FIGURA 1 - O anjo e o demônio
lutando pela guarda da criança (detalhe).
William Blake (c. 1805). |
|
| |
|
Tolerância |
|
|
|
A tolerância
é a necessidade de doses cada vez maiores da substância
para se obter os mesmos efeitos de antes. O corpo vai
se acostumando ao efeito da droga. Percebendo sua presença
constante no organismo, cria mecanismos para dificultar
sua ação sobre os neurônios (diminui
os receptores, torna-os menos sensíveis, destrói
a substância com mais rapidez). Isso faz com que
o usuário necessite de doses maiores. Na prática,
o usuário mantém uma ingestão constante
de uma determinada droga e consegue fazer coisas que incapacitaria
um usuário não-tolerante. Isso não
significa que seu desempenho não esteja prejudicado
(muito pelo contrário), mas não está
incapacitado. Nos estágios mais avançados
da dependência, o indivíduo começa
a perder a tolerância e fica incapacitado com doses
pequenas da droga.
 |
 |
 |
 |
Tolerância
em frases
"Eu sou forte para a bebida."
"Ninguém é capaz de me
derrubar na bebida."
"Um tirinho (de cocaína) já
não é a mesma coisa de antes."
"Um baseado já não me deixa
mais retartado." |
|
 |
 |
 |
 |
|
Sintomas de abstinência
Os sintomas
de abstinência são a evidência mais
palpável da presença da dependência.
Eles se caracterizam pela presença de sintomas
físicos e psíquicos de desconforto frente
à redução ou interrupção
do consumo de drogas. Quase todas as drogas são
capazes de desencadear sintomas de abstinência.
A intensidade dos sintomas é progressiva. Inicialmente
são predominantemente psíquicos: fissura
pela droga, ansiedade, sintomas depressivos (desânimo,
lentificação...), irritação,
piora da concentração e insônia. Na
medida em que a dependência aumenta, aumenta também
a magnitude dos sintomas. Entre os sedativos podem surgir
sintomas físicos, tais como tremor, suor difuso,
palpitações cardíacas, aumento da
temperatura do corpo, náuseas e vômitos,
podendo chagar até a quadros de confusão
mental (delirium).
 |
 |
 |
 |
Sintomas de abstinência
em frases
"Pela manhã sempre estou irritado.
Os sons me incomodam e as pessoas me tiram
do sério facilmente. Acabo sempre dizendo
coisas estúpidas, das quais sempre
me arrependo depois. Depois de beber uma pinguinha,
tudo melhora instantaneamente."
"Tenho uma tremedeira logo cedo que passa
depois de uma rebatida lá bar."
"Costumo sentir náusea e até
vomitar quando escovo os dentes pela manhã."
"Logo que a cocaína acaba vem
uma fissura intensa, incontrolável,
que me faz sair para busca mais."
"Lá pelo terceiro dia sem fumar
começo a me sentir ansioso, fissurado,
inquieto e desconcentrado. Tenho a sensação
de que nunca mais levarei uma vida tranqüila
novamente." |
|
 |
 |
 |
 |
|
|
|
|
|
| FIGURA 3 - O livro de Urizen.
William Blake (c. 1805). |
|
| |
|
Evitação
ou alívio dos sintomas da abstinência |
|
|
|
A evitação
ou alívio dos sintomas de abstinência é
um comportamento antecipatório, que visa a evitar
o surgimento dos sintomas de desconforto. O indivíduo
aprende (mesmo que não note) quando os sintomas
aparecem e procura sempre usar a sua droga de escolha
antes. A partir desse ponto, já se observa um consumo
rotineiro da substância em sua vida.
 |
 |
 |
 |
Compulsão
ou perda do controle em frases
"Tomo um gole de uísque na hora
do almoço para me aprumar."
"Só bebida cura minha tremedeira
matinal." |
|
 |
 |
 |
 |
|
Saliência do consumo
O avançar
da dependência, principalmente a intensificação
dos sintomas de abstinência, faz com o que indivíduo
priorize (em maior ou menor grau) a manutenção
do seu consumo de álcool ou outras drogas. Dessa
forma, seu tempo e seus recursos financeiros vão
paulatinamente se transferindo para a busca, o consumo
e a recuperação dos efeitos do mesmo. Muitas
vezes ele é mais forte do que a consciência
do usuário sobre os problemas sociais e de saúde
que seu uso de drogas já lhe causou.
 |
 |
 |
 |
Saliência
do consumo em frases
"Eu e meu pai costumávamos sair
todos os fins de semana. Depois que começou
a beber pra valer, não nos encontramos
como antes, vejo-o mais distante e acho que
ele até me evita às vezes.
"Estou mais distante porque as pessoas
se modificaram ao meu redor. Minha casa já
não é mais a mesma, minha mulher
só reclama e meus filhos parecem me
evitar. Na verdade também ando sem
tempo para a família. Tenho procurado
emprego, mas a crise está pegando.
Por isso tenho ficado mais tempo no botequim.
Sempre aparece algum contato interessante
por lá." |
|
 |
 |
 |
 |
|
|
|
|
|
| FIGURA 5 - William Hogarth. Gin
Lane (1751). |
|
| |
|
Estreitamento
do repertório |
|
|
|
| FIGURA 6 - O violoncelista (detalhe).
Djanira da Motta e Silva (1944). |
|
|
A ocasião
social influencia de maneira decisiva o consumo de drogas.
De um modo geral o consumo de álcool e drogas não
é permitido durante o expediente de trabalho ou
período escolar. O consumo de álcool acontece
nos fins-de-semana, ou durante a semana, em festinhas
de aniversário, encontros de amigos ou happy hours.
Há aqueles que apreciam um cálice de vinho
durante uma refeição. Existem ocasiões
que pedem bebidas específicas. O uísque
é uma bebida muito procurada em casamentos e shows
de jazz e blues. Já a cerveja é a bebida
dos barzinhos, dos fins-de-semana com amigos. Bebidas
mais doces são associadas às mulheres. O
vinho tinto e o conhaque são bebidas mais vendidas
durante o inverno.
Com as drogas ilícitas não é diferente.
O ecstasy é uma droga associada às raves
e a música eletrônica. Não se faz
uso dessa substância para ir um baile de rodeio.
A cocaína é um potente inibidor do apetite.
Será pouco provável encontrarmos usuários
dessa substância se esbaldando de carne num churrasco.
Há sempre ocasiões específicas para
o consumo de uma droga, não importa qual seja esta.
O estreitamento do repertório é justamente
a perda do vínculo social que justificava o consumo.
Utilizar uma substância virou uma necessidade, não
mais uma atitude vinculada a uma ocasião social.
Não se bebe mais para relaxar, para ficar mais
falante, bater um 'papo-cabeça´, para 'viajar'
com os amigos ou curtir melhor uma música. O
consumo se volta para o alívio ou evitação
dos sintomas de abstinência. Não importa
mais o dia da semana e a hora, o local, as pessoas ao
redor e muito menos a qualidade da substância. Vale
evitar a abstinência. Assim, aparece um consumo
previsível e com poucas variantes, ou seja, estreitado. |
 |
 |
 |
 |
Estreitamento do repertório
em frases
"Bebo uma pinga com Cinzano logo cedo no Bar
do Seu José, antes de pegar o ônibus.
Às onze horas, tiro meu horário pro
cafezinho na repartição. Dou um pulo
no Bar do Seu João, que ao me ver pisar no
seu botequim já vai logo pegando a garrafa
de vodca e me serve aquela espremida com limão.
Depois do expediente tomo umas e vou pra casa. Mas
sempre saio mais uma vez pra comprar o cigarro.
Chegando lá, Seu José tem sempre aquela
pinga com Cinzano prontinha pra mim." |
|
 |
 |
 |
 |
Reinstalação da
síndrome de dependência
O reaparecimento
dos sintomas físicos (síndrome de abstinência)
e comportamentais (evitação dos sintomas,
saliência do consumo, estreitamento do repertório)
em usuários que recaíram após períodos
variáveis de abstinência é denominado
reinstalação da síndrome de dependência.
O consumo de substâncias, como o álcool,
os solventes e a maconha, leva um tempo considerável
até o aparecimento da dependência. O tempo
é intermediário para o tabaco e relativamente
curto em se tratando do crack e dos opiáceos. Mas
por mais longa que seja a abstinência, um breve
retorno ao consumo pode fazer o indivíduo rapidamente
voltar ao seu padrão antigo, que anteriormente
levou muito tempo para se desenvolver.
 |
 |
 |
 |
Reinstalação
da síndrome de dependência em
frases
"Não fumava um cigarro há
anos. Comecei a namorar uma garota que fumava.
Dava uns tragos de vez em quando. Aos poucos,
aquela fissura, ansiedade e inquietação
que nem lembrava mais que existiam voltaram
rapidamente. Quando me percebi, um mês
depois, já fumava como antes. |
|
 |
 |
 |
 |
|
|
|
|
|
| FIGURA 7 - O alquimista. Remedios
Varo (1958). |
|
|
|
|
|
 |