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"No
fundo, todo o prazer é prazer do espírito; aí
repousa essa fonte inesgotável, brotando sob a forma
do desejo que nenhuma satisfação poderia saciar."
E. Jünger, Aproximações1.
O consumo de drogas e a sexualidade são questões
que ocupam o pensamento humano desde tempos imemoriais. Por
vezes ambos caminharam juntos e ainda hoje há substâncias,
como o ecstasy,
caracterizadas pelo grande público como capazes de melhorar
o desempenho e o prazer sexual. São por isso denominadas
afrodisíacos. Os gregos da Antigüidade entendiam
por afrodisíacos as obras ou atos da deusa do amor, Afrodite2.
As substâncias afrodisíacas são aquelas
consideradas capazes de aumentar, exacerbar atos, gestos e contatos
que proporcionam uma certa forma de prazer.
Na visão de Aristóteles, "todo mundo,
em certa medida, usufrui do prazer da mesa, do vinho e do amor;
mas, nem todos o fazem como convém"2.
Desse modo, uma série de normas foram sendo estabelecidas
para lidar com os excessos. A moral é o que mais rápido
vêm à mente quando esse tema é posto em
questão. Por moral entende-se um conjunto de valores
e regras propostas aos indivíduos e colocadas em prática
por meio da família, da escola, da imprensa, das instituições
religiosas e assim por diante. Também por moral, entende-se
igualmente o comportamento dos indivíduos perante tais
valores e regras2. Há aqueles que obedecem completamente,
aqueles que aderem com ressalvas, aqueles que não se
incomodam se seus comportamentos estão adequados à
moral vigente e aqueles que se opõem frontalmente a ela.
A associação entre o consumo de drogas e a sexualidade
sempre foi objeto de preocupações morais. Algumas
culturas antigas, como os hindus, chegaram a aceitar tal associação
com grande tranqüilidade. Já as sociedades ocidentais
sempre a enxergam com reservas. A questão moral, apesar
de ser a mais evocada quando o consumo de drogas e a sexualidade
se fazem presentes, não é a única. Tampouco
o tema se resume simplesmente a melhora do desempenho e do prazer
sexual. Há questões de Saúde Pública
envolvidas. Tratar o problema da sexualidade e do uso de drogas
deve ser colocado acima da oposição de valores,
da vontade de verdade, "essa célebre veracidade
de que todos os filósofos falaram até agora com
veneração, quantos problemas nos tem levado essa
vontade de verdade!"3.
Não se trata de buscar fatos científicos
(como se esses fossem imparciais e desprovidos de moral!), mas
buscar soluções para situações que
colocam em risco a saúde e a vida das pessoas. Quando
tratamos da questão das drogas, tais vidas tornam-se
ainda mais adolescentes.
Em meio a batalhas de natureza moral, ambos lados, armados de
tabus até os dentes, travam uma luta cuja origem já
se encontra perdida há muito. Todos parecem tomados por
automatismos. Drogas são afrodisíacas? Caso sejam,
isso as tornam mais legais ou é mais um motivo
para rechaça-las? É preciso que ganhemos maturidade
para analisar tais questões. Só assim, aqueles
que utilizam drogas poderão aceitar considerações
acerca dos perigos deste consumo4 sem se sentirem
como vira-casacas, caretas, moralistas.
Tal informação, pelo contrário, precisa
chegar como um apelo ao cuidado de si! E aqueles que encaram
tais substâncias como os petiscos da sala de visitas do
inferno, entenderão que na raiz do consumo de uma droga
existe uma escolha, que por vezes evolui para a dependência
(uma doença) e, por isso, merece ser respeitada, compreendida
e ponderada abertamente e sem pudores, sem, no entanto, eximir
tais indivíduos da responsabilidade que tal escolha lhes
acarretou. Um desafio para todos nós: dependentes de
drogas, parentes, amigos, educadores, profissionais da saúde,
políticos, mas acima de tudo, cidadãos.
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Referências bibliográficas:
1. Escohotado A. O livro das drogas: usos e abusos,
ddesafios e preconceitos. São Paulo: Dynamis
Editorial; 1997. P. 129.
2. Foucault M. A história da sexualidade
II o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal;
1984. P. 7-73.
3. Nietzsche F. Para além do bem e do mal.
Lisboa: Guimarães & Cia; 1978. P. 11.
4. Rawson RA, Washton A, Domier CP, Reiber C. Drugs
and sexual effects: role of drug type and gender.
J Subst Abuse Treat
2002; 22: 103-8. |
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