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Drogas inalantes: uma atualização.
PARTE I - EPIDEMIOLOGIA

Os inalantes são também conhecidos solventes ou substâncias voláteis1. Apesar de utilizados em escala considerável, têm merecido pouca atenção por parte dos pesquisadores. Os inalantes estão amplamente difundidos no mercado, vendidos sob diversos formatos, todos de venda livre e legal. É o caso dos sprays de tinta, dos esmaltes, da cola de sapateiro, dos thinners, do butano (gás de isqueiro), da gasolina e dos removedores de manchas. Todos esses produtos costumam ser de baixo custo. Tudo isso facilita o acesso de indivíduos de qualquer faixa etária e seu consumo é mais freqüente em áreas economicamente carentes2.

O consumo difundido de solventes pela humanidade apareceu após o surgimento e a consolidação das sociedades industriais, que combinavam num só tempo a vida urbana em grandes cidades, exclusão social e fabricação em larga escala de produtos contendo substâncias voláteis.

FIGURA 1: O Brasil na primeira metade do século XX. As cidades tornando-se metrópoles, as soluções químico-legais para o estresse urbano, o progresso tecnológico e o requinte da polis. Nesse ambiente os solventes começaram a ser produzidos em massa e rapidamente se popularizaram numa gama incontável de produtos.

No Brasil, o fenômeno tornou-se conhecido em meados da década de vinte, com a popularização do lança-perfume nos bailes carnavalescos. O produto foi proibido nos anos sessenta, mais ainda hoje é contrabandeado de outros países do Cone Sul3.

FIGURA 2: O lança-perfume, dos tempos da vovó aos dias de hoje, tornou-se o solvente mais conhecido e utilizado pela sociedade brasileira. Na foto à esquerda, simpáticas senhoras empunham seus tubos de lança-perfume, no carnaval dos anos trinta. À direita, um tubo de Universitário, a marca mais famosa entre os lança-perfumes contrabandeados para o Brasil de países do Cone Sul.

Os solventes são utilizados pelo menos uma vez na vida por cerca de 6% da população brasileira. É a quarta substância mais consumida no país, atrás do álcool, tabaco e maconha. Comparativamente, esse índice é de 7,5% nos EUA, 4% na Espanha e 1,4% na Colômbia4. No estado de São Paulo, o uso na vida de solventes é de 3%5.

FIGURA 3: Os solventes já foram utilizados pelo menos uma vez na vida por quase 6% da população brasileira, sendo a quarta substância mais consumida. FONTE: Galduróz et al (2002). I Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas no Brasil ~ Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID)4.

Os adolescentes são identificados como o grupo mais prevalente. Normalmente, o início do consumo acontece entre os 12 e 15, tornando-se menos improvável daí por diante6. A maioria destes experimenta poucas vezes os inalantes e logo o abandona. Outra porção utiliza-os em grupos de amigos com alguma regularidade, para abandona-los no início da idade adulta. Uma pequena quantidade de usuários, no entanto, consome inalantes por longos períodos, sente-se mal a respeito de seu uso, porém com a sensação de incapacidade para abandona-lo7.

FIGURA 4: Idade de início do consumo e encaminhamento. Nesse estudo realizado pelo governo norte-americano, notou-se que o início do consumo de inalantes dá-se principalmente até os 15 anos, tornando-se pouco provável a partir de então. Já os encaminhamentos mostram um crescente aumento daqueles de natureza judicial e redução dos escolares. Isso provavelmente demonstra que o consumo de inalantes é prevalente em indivíduos com índices de abandono escolar e criminalidade mais elevados.


Levantamentos realizados pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) com estudantes do ensino fundamental e médio de dez capitais brasileiras, entre 1987 e 1997, constatou que os inalantes são a terceira substância utilizada por estudantes, após o álcool e o tabaco (figura 5). O consumo manteve-se estável ao longo da década estudada8. Segundo Carlini-Cotrim (1991), a respeito do ensino médio, "o Brasil tem um padrão de consumo entre estudantes perfeitamente dentro dos padrões internacionais, destacando-se apenas em relação ao consumo de inalantes (2o maior índice mundial)"9.

FIGURA 5: O consumo de solventes durante o período escolar. Nota-se nos Estados Unidos [gráficos acima] uma tendência à redução do consumo ao longo do período escolar, ao contrário das outras substâncias, cujo consumo aumenta com o passar dos anos. No Brasil [gráfico à esquerda] quatro levantamentos entre estudantes de 10 capitais brasileiras (1987 - 1997) observaram que o consumo de solventes é o mais popular entre os alunos do ensino fundamental e médio (excluídos o álcool e o tabaco) e manteve-se estável ao longo da década considerada.

Entre meninos e meninas em situação de rua de seis capitais brasileiras o uso de inalantes foi o mais relatado em São Paulo, Porto Alegre e Recife; era a segunda substância mais consumida (após a maconha) no Rio de Janeiro e Fortaleza; e praticamente igual a maconha em Brasília (figura 6). A população estudada era predominantemente masculina, entre 12-14 anos e fora da escola (por abandono do lar ou falta de motivação)10. Para a maioria eles, o consumo de drogas se iniciou pelos solventes, geralmente porque os amigos já usavam.

FIGURA 6: Consumo de drogas por meninos em situação de rua de seis capitais brasileiras.

O uso de inalantes, porém, não atinge apenas os mais jovens. Entre as chamadas club drugs (veja o comentário nº 100), o óxido nitroso vem sendo utilizado por adultos dentro dos dance clubs7. Há relatos de consumo entre a população carcerária e evidências de que o consumo em adultos possa estar sendo subestimado3. Entre os motivos, está o baixo interesse que o consumo dessas substâncias desperta nos profissionais da saúde (subdiagnóstico) e relutância dos adultos em admiti-lo, uma vez que os solventes são considerados por muitos, drogas típicas de adolescentes imaturos2.

O consumo de inalantes é bem mais difundido entre os homens. Entre eles, o consumo é mais aberto e recebe maior aceitação cultural nas 'rodinhas de amigos'. Consumi-los é dito como "coisa de homem". Já o consumo entre as mulheres é mais atacado pelo meio social, apesar de também reconhecer que as mesmas os utilizam com mais controle e vivenciam menos problemas, se comparadas aos homens2.

Os dados anteriores sugerem que os inalantes estão entre as quatro substâncias mais consumidas pela população geral4-5, entre as duas mais entre aqueles que procuram tratamento especializado5 e é a substância mais utilizada por meninos em situação de rua10. Uma característica constantemente associada a qualquer um desses grupos é a exclusão social. O usuário de solventes, apesar de presente em todos os estratos sociais, atinge padrões mais graves de consumo quando é proveniente de classes sociais desfavorecidas e excluídas. Segundo Jesus & Silva (1998)3, boa parte desses indivíduos é caracterizada por "baixa renda familiar e pouca cultura, e proveniente de famílias desestruturadas - quase sempre numerosas - onde são comuns: a ausência de pelo menos um dos pais; a carência de relacionamento afetivo com os familiares; a grande incidência de alcoolismo no ambiente doméstico e o desemprego." Entre os fatores ambientes que aumentam o risco para o consumo entre esses indivíduos, os mesmos autores ressaltam a baixa condição social, o uso de drogas pelos pais, a influência dos companheiros e o estresse social. Para esse último, os solventes desempenhariam um papel 'anestésico' e de alívio, contra situações tais como dor e fome.

FIGURA 7: Inalantes e exclusão social: quase sinônimos.

Para os usuários, a disponibilidade da substância, a necessidade biológica em consumi-la (dependência) e a falta de apoio social e institucional para tratamento são os fatores importantes para a manutenção do consumo de inalantes entre eles. Infelizmente, tal continuidade está associada a complicações. Pelo menos a metade dos usuários crônicos de inalantes apresenta complicações psiquiátricas, em especial a depressão11. Há várias explicações para essa associação. O consumo de inalantes pode ocorrer como uma forma de aliviar sintomas depressivos basais ('automedicação'). O consumo de inalantes pode ocasionar sintomas depressivos, principalmente em usuários pesados (depressão secundária). Por fim, o uso nocivo de inalantes e os sintomas depressivos podem aparecer de modo independente, a partir de um estímulo neutro (por exemplo, um fim de namoro, um período de vida marcado pela baixa estima ou por dificuldade em lidar com certas situações). O risco de suicídio é maior para qualquer dependente de drogas e piora na vigência do poliuso12.

Por fim, as complicações de ordem clínica, em especial as pneumopatias induzidas, tais como as lesões do trato respiratório não podem ser esquecidas. O consumo de inalantes deve sempre ser investigado frente a edemas supraglóticos e traqueobrônquicos em indivíduos que se apresentam nas salas de emergência com tosse, insuficiência respiratória e laringo ou brônquio-espasmo13.
FIGURA 8: Inalantes. Muitos produtos, pouco conhecimento.

Situar-se epidemiologicamente é fundamental para que as metas e objetivos direcionados a um determinado problema sejam estabelecidos e implementados de forma planejada e sustentável do ponto de vista da saúde pública. Os inalantes, infelizmente, possuem poucos dados epidemiológicos, tanto nacionais e internacionais. Entre as razões para essa escassez está a crença de que tais substâncias são pouco danosas, típicas de uma fase passageira da adolescência. Há, ainda, evidências de que, na prática, poucos indivíduos procuram tratamento ambulatorial ou de emergência exclusivamente pelo consumo dessa substância. Resta saber, no entanto, o quanto que a crença da inofensividade e efemeridade do consumo por parte dos profissionais contribui para que a relação entre uso de solvente e suas complicações clínicas seja subdiagnosticada por esses profissionais. Somado a isso, é necessário também mensurar o quanto a exclusão social imposta a maioria dos usuários não se torna uma barreira para a procura por serviços especializados.

Mas talvez o mais preocupante e lamentável seja a constatação de que o desconhecimento epidemiológico e o conhecimento parcial acerca dos mecanismos neurobiológicos da intoxicação, da dependência e das complicações relacionadas ao consumo de inalantes advenha, também, do fato dessa substância ser consumida por indivíduos socialmente excluídos e, por isso, vítimas de preconceito e marginalização, além de pouco interessantes do ponto de vista econômico. Mais um sintoma de exclusão...

Referências bibliográficas:
1. Pandina R, Hendren R. Other drugs of abuse: inhalants, designer drugs and steroids. In: McCrady BS, Epstein EE. Addictions - a comprehensive guidebook. New York: Oxford University Press; 1999. P. 171-86.

2. Lara MA, Romero M, Dallal C, Stern R, Molina K. Percepción que tiene una comunidad sobre el uso de solventes inhalables. Salud Ment 1998; 21(2): 19-28.

3. Jesus MD, Silva OA. Inalantes de abuso: exposição humana e efeitos tóxicos. Rev Farm Bioquim Univ São Paulo 1998; 34(1): 1-14.

4. Galduróz JC, Noto AR, Nappo SA, Carlini EA. I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas no Brasil. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) ~ Universidade Federal de São Paulo & Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP); 2002.

5. Galduróz JC, Noto AR, Nappo SA, Carlini EA. I Levantamento Domiciliar Nacional sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas. Parte A: estudo envolvendo as 24 maiores cidades do Estado de São Paulo. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) ~ Universidade Federal de São Paulo; 2000.

6. Drug and Alcohol Services Informations System (DASIS). Adolescent Admition Involving Inhalants [online]. The DASIS Report, March 14, 2002. Available from: URL: http://www.drugabusestatistics.samhsa.gov .

7. Australian Drug Fundation. Inhalants [online]. Available from: URL: http://www.adf.org.au .

8. Galduróz JC, Noto AR, Carlini EA. IV Levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1o e 2o graus em 10 capitais brasileiras. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID); 1997.

9. Carlini-Cotrim B. O consumo de substâncias psicotrópicas por estudantes secundários: o Brasil frente à situação internacional. Rev ABP-APAL 1991; 13(3): 112-6.

10. Noto AR, Nappo SA, Galduróz JC, Mattei R, Carlini EA. IV levantamento sobre uso de drogas entre crianças e adolescentes em situação de rua de seis capitais brasileiras ~ 1997. São Paulo (Brasil): Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) ~ Universidade Federal de São Paulo; 1998.

11. Kelder SH, Murray NG, Orpinas P, Prokhorov A, McReynolds L, Zhang Q, Roberts R. Depression and substance abuse in minority middle-school students. Am J Pub Health 2001; 91(5): 761-6.

12. Borges G, Walters EE, Kessler RC. Associations of substance use, abuse and dependence with subsequent suicidal behavior. Am J Epidemiol 2000; 151(8): 789.

13. Kaloudová Y, Brychta P, Ríhová H, Suchánek I, Hrubá J, Seidlová D, Hrazdírová A, Kubálek V. Inhalation injury. Acta Chi Plasti 2000; 42(4): 115-7



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