www.einstein.br
  Mapa do Site Página Inicial
Últimas Notícias
Entrevistas Relacionadas
Atualizações Científicas
Artigos Interessantes
Dúvidas mais frequentes
Atualização Anteriores
 
 

FIGURA 1: Johann Wilhelm Weinmann Phytanthoza Iconographia (1735-1745)

Tratamento da dependência de maconha

O texto apresentado essa semana pertence ao livro: "Usuários de substâncias psicoativas" (Marcelo Ribeiro & Ana Cecília Marques), editado pela Associação Médica Brasileira e pelo Conselho Regional de Medicina. O livro é a nova diretriz para o tratamento das dependências químicas e encontra-se totalmente disponível online: www.cremesp.com.br


A MACONHA

A Cannabis sativa é um arbusto da família das Moraceae, conhecido pelo nome de "cânhamo" da Índia, que cresce livremente nas regiões tropicais e temperadas. Os seus efeitos medicinais e euforizantes são conhecidos há mais de 4 mil anos. Na China existem registros históricos da crença de suas ações medicinais desde o século III a.C1. No início do século passado, passou a ser considerada um "problema social", sendo banida legalmente na década de 30. O seu uso médico declinou lentamente, pois pesquisadores não conseguiram isolar os seus princípios ativos e em função da rápida deterioração da planta. Alguns países começaram a relacionar o abuso da maconha à degeneração psíquica, ao crime e à marginalização do indivíduo. Nas décadas de 60 e 70, o seu consumo voltou a cresceu significativamente, chegando ao ápice no biênio 1978/1979.


EPIDEMIOLOGIA

A maconha é a droga ilícita mais usada mundialmente2. Nos EUA, 40% da população adulta já experimentou maconha uma vez pelo menos3. O uso da maconha geralmente é intermitente e limitado: os jovens param por volta dos seus 20 anos e muito poucos entram num consumo diário por anos seguidos4. A dependência de maconha está entre as dependências de drogas ilícitas mais comuns: um em dez daqueles que usaram maconha na vida se tornam dependentes em algum momento do seu período de 4 a 5 anos de consumo pesado. Este risco é mais comparável ao risco de dependência de álcool (15%) do que de outras drogas (tabaco é de 32% e opióides é de 23%)5.

FIGURA 2: Consumo de maconha no mundo. FONTE: UNODCCP. Global illicit drug trends; 2001.

No Brasil, um levantamento realizado em 1997 com estudantes de 1o e 2o grau em 10 capitais brasileiras, mostra que a maconha é a droga ilícita mais utilizada. Comparando levantamentos anteriores (1987, 1989, 1993 e 1997), a maconha foi a droga que mais teve seu 'uso na vida' aumentado, passando de 2,8% em 87 para 7,6% em 1997. Também o uso freqüente e o pesado aumentaram estatisticamente ao longo dos 4 levantamentos. O uso freqüente (seis vezes ou mais no mês) passou de 0,4% em 1987 para 1,7% em 19976. Em levantamento domiciliar feito na cidade de São Paulo em 19997, com uma população acima de 12 anos, a maconha foi a droga que teve maior uso na vida (6,6%), seguida de longe pelos solventes (2,7%) e pela cocaína (2,1%)7.

FARMACOLOGIA

 

FIGURA 3: Delta-9-tetraidrocanabinol

A Cannabis sativa contém aproximadamente 400 substâncias químicas, entre as quais destacam-se pelo menos 60 alcalóides conhecidos como canabinóides. Eles são os responsáveis pelos seus efeitos psíquicos e classificados em 2 grupos: os canabinóides psicoativos (por ex., Delta-8-THC, Delta-9-THC e o seu metabólico ativo, conhecido como 11-hidróxi-Delta-9-THC) e os não-psicoativos (por ex., canabidiol e canabinol). O Delta-9-THC é o mais abundante e potente destes compostos8.

Sabe-se hoje que existem receptores canabinóides, específicos para o Delta-9-THC no tecido cerebral de ratos, bem como um suposto neurotransmissor para os receptores endógenos, denominando-o anandamida9. Isso possibilitaria o empregado dos canabinóides sintéticos no tratamento de uma série de condições médicas (por ex., epilepsia, dor, asma brônquica, náuseas, vômitos, espasticidade muscular, câncer e glaucoma), para as quais a maconha parece possuir valor alopático (quadro 1).

 
Quadro 1: Efeitos terapêuticos da maconha10
  • Analgésico
  • Anti-convulsivante
  • Hipnótico e Sedativo
  • Broncodilatador
  • Antibiótico
  • Anti-espasmódico
  • Vasodilatador
  • Anti-emético
  • Pressão Intra-ocular
  • Estimulação do Apetite

As taxas de absorção orais são mais elevadas (90 - 95%) e lentas (30 - 45 minutos) em relação à absorção pulmonar (50%). Os efeitos farmacológicos pela absorção pulmonar podem demorar entre 5 a 10 minutos para iniciarem11. Devido à sua lipossolubilidade, os canabinóides acumulam-se principalmente nos órgãos onde os níveis de gordura são mais elevados (cérebro, testículos e tecido adiposo)12. Alguns pacientes podem exibir os sintomas e sinais de intoxicação por até 12 a 24 h, devido à liberação lenta dos canabinóides a partir do tecido adiposo11.


COMPLICAÇÕES AGUDAS

INTOXICAÇÃO AGUDA

Um cigarro de maconha ou baseado típico contém cerca de 0,3 - 1g de maconha. A concentração de Delta-9-THC, nas diferentes apresentações da Cannabis (maconha, haxixe, skunk), varia de 1 - 15%, ou seja, de 2,5 a 150mg de THC11. Estima-se que a concentração mínima preconizada para a produção dos efeitos euforizantes seja de 1% ou 1 cigarro de 2 a 5 mg. Os efeitos da intoxicação aparecem após alguns minutos do uso12 (quadro 2).


Quadro 2: Sinais e sintomas decorrentes do consumo da maconha.
Efeitos euforizantes
  • aumento do desejo sexual
  • sensação de lentificação do tempo
  • aumento da autoconfiança e grandiosidade
  • risos imotivados
  • loquacidade
  • hilaridade
  • aumento da sociabilidade
  • sensação de relaxamento
  • aumento da percepção das cores, sons, texturas e paladar
  • aumento da capacidade de introspecção
Efeitos Físicos
  • taquicardia
  • hiperemia conjuntival
  • boca seca
  • hipotermia
  • tontura
  • retardo psicomotor
  • redução da capacidade para execução de atividades motoras complexas
  • incoordenação motora
  • redução da acuidade auditiva
  • aumento da acuidade visual
  • broncodilatação
  • hipotensão ortostática
  • aumento do apetite
  • xerostomia
  • tosse
  • midríase
Efeitos Psíquicos
  • despersonalização
  • desrealização
  • depressão
  • alucinações & ilusões
  • sonolência
  • ansiedade
  • irritabilidade
  • prejuízos à concentração
  • despersonalização
  • desrealização
  • depressão
  • alucinações & ilusões
  • sonolência
  • ansiedade
  • irritabilidade
  • prejuízos à concentração

 

Déficits motores (por ex., prejuízo da capacidade para dirigir automóveis) e cognitivos (por ex., perda de memória de curto prazo, com dificuldade para lembrar de eventos, que ocorreram imediatamente após o uso de canábis) costumam acompanhar a intoxicação13 (quadro 3).

Quadro 3: Déficits motores e cognitivos observados durante a intoxicação aguda de maconha.
  • redução da capacidade para solucionar problemas e classificar corretamente as informações (por ex., sintetizar da parte para o todo)
  • habilidades psicoespaciais (por ex., problemas para diferenciar tempo e espaço)
  • piora da compreensão diante de estímulos sensoriais apresentados
  • redução da capacidade para realizar atividades complexas (por ex., dirigir automóveis)
  • prejuízo da representação mental do ambiente
  • redução das atividades da vida diária
  • redução da capacidade de transferir material da memória imediata para a memória de longo prazo
  • piora das tarefas de memória de códigos
  • 'ressaca' matinal
  • redução da formação de conceitos
  • piora da estimativa de tempo
  • piora da capacidade de concentração.

SINTOMAS PSIQUIÁTRICOS

O consumo de maconha pode desencadear quadros temporários de natureza ansiosa, tais como reações de pânico, ou sintomas de natureza psicótica. Ambos habitualmente respondem bem a abordagens de reasseguramento e normalmente não há necessidade de medicação14.

A maconha é capaz de piorar quadros de esquizofrenia, além de constituir um importante fator desencadeador da doença em indivíduos predispostos15. Desse modo, pacientes esquizofrênicos usuários de maconha e seus familiares devem ser orientados acerca dos riscos envolvidos. O mesmo se aplica aos indivíduos com fatores de risco e antecedentes familiares para a doença15. Existem evidências que o consumo da maconha podem levar ao aparecimento de sintomas mentais.


COMPLICAÇÕES CRÔNICAS

Ainda há pouco consenso a respeito das complicações crônicas do consumo de maconha. As inve stigações acerca existência de seqüelas ao funcionamento cognitivo e de dependência da maconha têm merecido a atenção dos pesquisadores nos últimos anos.

FUNCIONAMENTO COGNITIVO

Não há evidências científicas suficientes para concluir que a maconha produz déficits cognitivos grosseiros, como os observados entre os usuários de sedativos como o álcool e os benzodiazepínicos16. No entanto, há evidência de que o uso prolongado de maconha é capaz de causar prejuízos cognitivos relacionados a organização e integração de informações complexas , envolvendo vários mecanismos de processos de atenção e memória17. Tais prejuízos podem aparecer após poucos anos de consumo. Processos de aprendizagem podem apresentar déficits após períodos mais breves de tempo17.

Prejuízos da atenção podem ser detectados a partir de fenômenos tais como aumento da vulnerabilidade à distração, afrouxamento das associações, intrusão de erros em testes de memória, inabilidade em rejeitar informações irrelevantes e piora da atenção seletiva. Tais prejuízos parecem estar relacionados à duração, mas não a freqüência do consumo de maconha17. Porém, um estudo bastante recente comparando usuários pesados de maconha, com ex-usuários pesados e com usuários recreacionais, constatou que os déficits cognitivos, apesar de detectáveis após 7 dias de consumo pesado, são reversíveis e relacionados ao consumo recente de maconha e não estão relacionados ao uso cumulativo ao longo da vida18.


DEPENDÊNCIA

A dependência da maconha vem sendo diagnosticada há algum tempo, nos mesmos padrões das outras substâncias. Muitos estudos comprovam que os critérios atuais de dependência se aplicam muito bem à dependência da maconha bem como de outras drogas19. Devido a dificuldade de quantificar a quantidade de maconha que atinge a corrente sangüínea, não há doses formais definidas de THC que produz a dependência. O risco de dependência aumenta conforme a extensão do consumo17. Apesar disso, alguns usuários diários não se tornam dependentes ou desejam parar o consumo. A maioria dos usuários não se torna dependente e uma minoria desenvolve uma síndrome de uso compulsivo semelhante à dependência de outras drogas20.

 
Quadro 4: Sintomas de abstinência da maconha.
  • Fissura
  • Irritabilidade
  • Nervoso
  • Inquietação
  • Sintomas depressivos
  • Insônia
  • Redução do apetite
  • Cefaléia

Para complementar a formalização da dependência da maconha, a síndrome de abstinência desta droga, apesar de reconhecida como fato pelo CID-1021 só havia sido descrita em laboratório. Budney e colaboradores (1999)22 definiram uma lista de sintomas afetivos, comportamentais e físicos inclusive, que hoje são usados informalmente na clínica (quadro 4). Uma recente revisão da literatura não encontrou evidências acerca origem neurobiológica da síndrome de abstinência específica para a maconha, mas não quanto ao seu aparecimento. preferindo denominar os sintomas observados de sintomas de rebote23.

Apesar da existência de muitos efeitos nocivos da maconha permanecerem inconclusivos, a recomendação é que os profissionais de saúde devam informar seus pacientes usuários de maconha sobre os já comprovados efeitos nocivos (risco de acidente, danos respiratórios para usuários crônicos, risco de desenvolver dependência para usuários diários e déficit cognitivo para os usuários crônicos). Os efeitos nocivos inconclusivos também devem ser transmitidos. Intervenções mínimas, de natureza motivacional ou cognitiva, têm se mostrado de grande valia para esses indivíduos24. Casos de dependência estabelecida devem ser encaminhados para atenção profissional especializada. Não há medicação específica.

 

Referências bibliográficas:

  1. Talbott J, Hales TI, Yudofsky S. Tratado de Psiquiatria. Porto Alegre: Artes Médicas; 1992.

  2. United Nations Office for Drug Control and Crime Prevention (UNODCCP). Global illicit drug trends 2001 [online]. Vienna: UNODCCP, 2001. Available from: URL: http://www.undcp.org/adhoc/report_2001-06-26_1/report_2001-06-26_1.pdf .

  3. Gold MS. Marijuana. NY: Plenum medical book company, 1989.

  4. Bachman JG. Smoking, drinking and drug use in young adulthood. Malwah, New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates; 1997.

  5. Anthony JC. Comparative epidemiology of dependence on tobacco, alcohol, controlled substances and inhabitants: basic findings from the National comorbidity Study. Clin Exp Psychopharmacol 1994; 2: 244-268.

  6. Galduróz JC, Noto AR, Carlini EA. IV Levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1o e 2o graus em 10 capitais brasileiras. São Paulo: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID); 1997.

  7. Galduróz JC, Noto AR, Nappo AS, Carlini EA. I Levantamento Domiciliar Nacional sobre o uso de drogas psicotrópicas. São Paulo: FAPESP; 1999.

  8. Kaplan HI, Sadock BJ, Grebb JA. Compêndio de Psiquiatria: ciências do comportamento e psiquiatria clínica. Porto Alegre: Artes Médicas; 1997.

  9. Devane WA, Hanus L, Breuer A, Pertwee RG, Stevenson LA, Griffin G, Gibson D, Mandelbaum A, Etinger A, Mechoulam R. Isolation and structure of a brain constituent that binds to the cannabinoid receptor. Science 1992; 18;258(5090):1946-9.

  10. Kalant H. Medicinal use of cannabis: history and current status.
    Pain Res Manag. 2001; 6(2):80-91.

  11. Adams IB, Martin BR. Cannabis: pharmacology and toxicology in animals and humans. Addiction 1996; 91: 1585-614.

  12. Jones RT. Human effects: an overview. In: Petersen RC. Marijuana research findings. Rockville: DHHS-NIDA; 1980. P. 54-80.

  13. Solowij N. Acute effects of cannabis on cognitive functioning. In: Solowij N. Cannabis and cognitive functioning. Cambrigde: Cambridge University Press; 1998. P.29-39.

  14. Schuckit M. Canabinóis. In: Schuckit M. Abuso de álcool e drogas - uma orientação clínica ao diagnóstico e tratamento. Porto Alegre: Artes Médicas; 1991. P. 176-91.

  15. Hall W. Cannabis use and psychosis - comprehensive review. Drug Alcohol Rev 1998; 17: 433-44.

  16. Wert RC, Raulin ML. The cronic cerebral effects of cannabis use II - psychological findings and conclusions. Int J Addictions 1986; 21: 629-42.

  17. Pope HG, Yurgelun-Todd D. The residual cognitive effects of heavy marijuana use in college students. JAMA 1996; 275: 521-7.

  18. Pope HG.. Neuropsychological performance in long-term cannabis users. Arch Gen Psychiatry 2001; 58: 909-15.

  19. Rounsaville BJ, Bryant K, Barbor T, Kranzler H, Kadden R. Cross-system agreement for substance use disorders. Addiction 1993; 88: 337-48.

  20. Haas AP, Hendin H. The meaning of chronic marijuana use among adults: a psychological perspective. J Drug Issues 1987; 17: 333-48.

  21. Organização Mundial da Saúde. Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10. Porto Alegre: ARTMED; 1993. P. 69-82.

  22. Budney A J, Novy PL, Hughes JR. Marijuana withdrawal among adults seeking treatment for marijuana dependence. Addiction 1999; 94 (9), 1311- 22.

  23. Smith NT. A review of the published literature into cannabis withdrawal symptoms in human users. Addiction 2002; 97(6): 621-32.

  24. Stephens RS, Roffman RA, Curtin L. Comparison of extended versus brief treatments for marijuana use. J Consult Clin Psychol 2000; 68(5): 898-908.
Veja também...
Atualizações Anteriores

O conteúdo deste site é de domínio público, os textos aqui contidos podem ser reproduzidos desde que as informações não sejam alteradas e a fonte seja citada adequadamente. Para citar a fonte, copie a linha abaixo:

Site Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas) / NEAD - Núcleo Einstein de Álcool e Drogas do Hospital Israelita Albert Einstein

Atenciosamente
Equipe Álcool e Drogas sem Distorção

Últimas Notícias
Entrevistas Relacionadas
Atualizações Científicas
Artigos Interessantes
Dúvidas mais frequentes
Política de Privacidade | © 2000/2009. Todos os direitos reservados.